Missões: o crescimento nos aguarda
Estudo expositivo sobre a urgência da Grande Comissão, o modelo de expansão da igreja primitiva e a responsabilidade da resposta ao chamado missionário
A história do cristianismo não é a narrativa de um movimento estático ou de uma filosofia de confinamento comunitário. O Evangelho de Jesus Cristo carrega em sua essência uma força dinâmica, expansiva e transcultural. A igreja do Novo Testamento não cresceu por mero acaso ou por estratégias de entretenimento humano; ela se expandiu de forma avassaladora porque entendeu que a sua sobrevivência e o seu crescimento estão diretamente vinculados ao cumprimento da obra missionária. Quando a igreja local se move em obediência para alcançar os perdidos, o próprio Espírito Santo assume o papel de adicionar as almas, provando que o crescimento espiritual e numérico nos aguarda na fronteira da nossa obediência.
1. O painel estatístico de Atos: O crescimento como fruto da proclamação
O livro de Atos dos Apóstolos funciona como um diário de bordo da expansão do Reino. À medida que os discípulos avançavam testemunhando o poder da ressurreição, o crescimento numérico manifestava-se como uma consequência natural do cumprimento da missão.
Atos 2:41 (Três mil adicionados): No dia de Pentecostes, após a pregação ousada e ungida de Pedro, a igreja saltou de um grupo de cerca de 120 pessoas para uma comunidade com mais três mil novos convertidos batizados em um único dia.
Atos 4:4 (O crescimento para cinco mil): Mesmo debaixo do início das perseguições e das ameaças das autoridades religiosas, a Palavra continuava a ecoar, fazendo o número de homens crentes saltar para cerca de cinco mil.
Atos 5:14 (Multidões agregadas): O crescimento tornou-se contínuo e incontável. O texto pontua que “mais e mais homens e mulheres” eram agregados ao Senhor diariamente, mostrando que a conversão em massa virara rotina.
Atos 5:28 (Jerusalém inundada): O impacto da pregação foi tão profundo que os próprios inimigos e perseguidores do Evangelho testemunharam, irritados, que os apóstolos haviam enchido toda a cidade de Jerusalém com a sua doutrina.
Atos 6:7 (O avanço entre os religiosos): A Palavra de Deus se multiplicava rapidamente. O número de discípulos aumentava de forma exponencial e até mesmo um grande número de sacerdotes judeus — que antes rejeitavam o Messias — rendeu-se em obediência à fé.
Observações explicativas e exemplos práticos:
Crescimento saudável é fruto de conversão: O crescimento registrado na igreja primitiva não era o resultado de “transferência de membros” de uma congregação para outra. Era fruto de resgate de almas no inferno, pessoas que abandonavam o judaísmo ou o paganismo romano pelo impacto da mensagem da cruz. A igreja moderna precisa entender que o verdadeiro crescimento se faz pescando em mar aberto, e não trocando peixes de aquário.
Exemplo de saturação cultural: Quando Atos 5:28 diz que eles “encheram Jerusalém” com a doutrina, isso nos dá o exemplo de uma igreja barulhenta e ativa, que não se confinava em quatro paredes. Os crentes evangelizavam no templo, nas praças, nas feiras e de casa em casa. Saturar uma cidade com o Evangelho exige que cada membro se veja como um agente missionário no seu local de trabalho, estudo e vizinhança.
A obediência dos improváveis: O fato de um “grande número de sacerdotes” ter se convertido em Atos 6:7 prova que nenhuma mente legalista ou coração endurecido pela religiosidade tradicional é resistente ao poder do Evangelho quando a igreja se posiciona para pregar. Não cabe a nós julgar quem vai aceitar; cabe a nós anunciar a todos.
2. A Grande Comissão e a urgência do tempo presente
A ordem para fazer missões não decorre de uma sugestão pastoral ou de um projeto opcional para os crentes mais entusiasmados. Missões é um mandamento imperial, uma ordem expressa e soberana emitida pelo Rei da Glória antes de subir ao trono celestial.
Mateus 28:18-20
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século.”
Mateus 24:14
“E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, como testemunho a todas as nações; e então virá o fim.”
Apocalipse 7:9
“Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos.”
A base da autoridade: Jesus inicia a comissão reivindicando para Si o controle absoluto sobre o universo (“toda a autoridade”). O crente não vai ao campo missionário baseado em sua própria força ou carisma, mas amparado pelos decretos do Dono do mundo.
A abrangência do alvo: A ordem é ir e fazer discípulos de “todas as nações” (do grego ethne, referindo-se a grupos étnicos e povos, e não apenas divisões geopolíticas). O plano de Deus só estará concluído quando todos os povos ouvirem o testemunho do Evangelho.
O relógio escatológico: Mateus 24:14 conecta diretamente o retorno de Cristo com a atividade missionária da igreja. A pregação global é o pré-requisito que destranca o cumprimento do fim dos tempos.
O resultado final garantido: A visão descrita pelo apóstolo João em Apocalipse 5:9 e 7:9 garante o sucesso absoluto da obra missionária. O céu estará povoado por representantes de cada língua, tribo e povo, provando que o investimento em missões nunca será em vão.
Observações explicativas e exemplos práticos:
O significado do “Ide”: No original grego, a expressão “Ide” pode ser compreendida de forma contínua como “enquanto vocês estiverem indo”. Significa que fazer discípulos não é uma atividade restrita a uma viagem transcultural anual; é uma conduta para o cotidiano, no fluxo normal da vida, onde quer que o cristão coloque a planta dos seus pés.
Exemplo de investimento eterno: Recursos financeiros aplicados em bens terrenos sofrerão a ação do tempo, da inflação e da ferrugem. O dinheiro investido no sustento de missionários, na compra de Bíblias e na abertura de frentes de evangelismo em locais não alcançados é convertido em almas vestidas de branco diante do trono. Missões é o único investimento com garantia de retorno eterno.
A promessa da presença: Jesus prometeu estar conosco todos os dias até o fim dos tempos (Mateus 28:20). No entanto, essa promessa está contextualmente atrelada à ação de ir e fazer discípulos. Uma igreja que se recusa a fazer missões perde a vivacidade e o calor da presença manifesta do seu Senhor.
3. A insensibilidade diante da colheita e o perigo do desvio de foco
Apesar da clareza das ordens de Jesus, a igreja constantemente corre o risco de cair na armadilha da apatia, da procrastinação e da distração espiritual, trocando a urgência da colheita por debates internos irrelevantes.
Mateus 9:37-38
“Então, disse a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.”
Atos 1:6-8
“Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”
O paradoxo da escassez: Jesus expõe um contraste doloroso: os campos estão maduros e prontos para a colheita (a seara é grande), mas há uma falta crônica de voluntários dispostos a pegar na foice do trabalho prático.
A distração pelas pautas políticas: Mesmo após conviverem com Jesus ressurreto por quarenta dias (Atos 1:3), os discípulos revelaram insensibilidade ao manifestarem preocupação com agendas geopolíticas locais (“restauras o reino a Israel?”). Eles queriam debater nacionalismo, enquanto Jesus focava na salvação global.
A correção da rota pelo poder: Jesus encerra o debate político redirecionando o foco e a energia deles para o que de fato importava: o batismo no Espírito Santo como capacitação sobrenatural para que eles operassem como testemunhas vivas até os limites geográficos do planeta.
Observações explicativas e exemplos práticos:
O perigo do ativismo institucional para si mesma: Uma igreja pode se tornar extremamente ocupada organizando festas, congressos internos, reformas de prédios e debates teológicos estéreis, enquanto ignora os pecadores que estão morrendo sem Cristo na rua de trás do templo. Desviar o foco da missão principal transforma a igreja em um clube social religioso.
Exemplo de urgência agrícola: Se um agricultor contempla a sua lavoura totalmente madura e atrasa a colheita por semanas devido a debates secundários com os seus funcionários, os grãos fatalmente apodrecerão no campo e a perda será total. A humanidade está madura para o juízo; adiar o evangelismo por preguiça ou indecisão é permitir que almas sejam lançadas na perdição eterna.
A geografia da responsabilidade: O plano de Atos 1:8 estabelece círculos concêntricos de ação que devem ocorrer de forma simultânea:
Jerusalém: O evangelismo local, na sua própria cidade, com a sua família e amigos.
Judeia e Samaria: A obra missionária estadual e nacional, alcançando os que estão perto, mas pertencem a culturas ou contextos diferentes.
Confins da terra: Missões transculturais mundiais, enviando recursos e obreiros para nações de línguas e religiões fechadas ao Evangelho.
4. O chamado missionário e a resposta da obediência radical
A execução de missões exige o funcionamento coordenado de uma engrenagem que envolve tanto aqueles que são chamados para ir ao campo quanto aqueles que são convocados a sustentar, orar e enviar. Ninguém possui licença para ficar de braços cruzados na hora da colheita.
Isaías 6:8
“Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim.”
Romanos 10:13-15
“Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!”
A busca por voluntários: O texto do profeta Isaías nos revela um Deus que insere a Sua igreja nos Seus processos. Ele não envia anjos para pregar; Ele pergunta: “A quem enviarei?”. A resposta exige a prontidão de um coração rendido que declara: “Eis-me aqui”.
A lógica jurídica da pregação: O apóstolo Paulo constrói uma corrente de dependência em Romanos 10. A salvação depende de invocar o nome do Senhor; invocar depende de crer; crer depende de ouvir; ouvir depende de haver quem pregue; e pregar depende da igreja que envia. Se um desses elos quebrar, o processo da salvação é interrompido.
A estética dos pés sacrificiais: O Senhor avalia a beleza do crente não pela sua aparência estética exterior, mas pelo desgaste dos seus pés na poeira da estrada empenhados na proclamação das boas-novas da graça.
Observações explicativas e exemplos práticos:
Os três papéis em missões: Na engrenagem missionária do Reino, você só possui três alternativas legítimas de posicionamento:
Ir: Obedecer ao chamado para arrumar as malas, cruzar fronteiras e pregar diretamente no campo.
Enviar: Sustentar financeiramente com dízimos e ofertas os missionários que foram, além de investir na estrutura de envio da igreja.
Interceder: Orar sem cessar para que Deus abra portas de pregação, proteja a saúde física dos obreiros e blinde as suas famílias contra os ataques espirituais.
Exemplo de resgate em alto-mar: Pense em um navio de resgate enviado para salvar náufragos em um oceano gelado. Há os mergulhadores que se jogam na água para puxar as vítimas (os que vão), há os marinheiros que controlam as cordas e as redes para içá-los (os que enviam e sustentam) e há os que operam os radares e sistemas de comunicação monitorando a segurança de todos (os que oram). Se os homens das cordas soltarem o suporte, os mergulhadores afundarão com as vítimas. Missões é um trabalho de parceria total.
A seriedade do envio: Uma igreja que não envia missionários bloqueia o canal de bênçãos sobre si mesma. Cooperar com missões não é fazer um favor para os obreiros; é cumprir com o dever financeiro e espiritual de devolver ao Senhor os recursos que Ele mesmo colocou em nossas mãos para a expansão do Seu Reino.
Conclusão
O crescimento e o avivamento real que tanto almejamos para as nossas igrejas não nascerão de novas técnicas de marketing eclesiástico ou de discursos de autoajuda. O crescimento legítimo nos aguarda no campo da obediência missionária. Quando a igreja se dispõe a chorar pelas almas perdidas, a dobrar os joelhos em favor das nações não alcançadas e a investir os seus melhores recursos no envio de obreiros, o Senhor da seara abre as janelas dos céus e adiciona diariamente os remidos. Deixe a apatia de lado, responda ao chamado do Senhor com integridade e faça da sua existência um instrumento para que os confins da terra conheçam que só Jesus Cristo é o Senhor.
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